ZOE

 

Exemplo de coragem livra família da tortura

          

 “Eu não era mais eu”... . Eu prefiro morrer lutando a morrer acovardada, parada, sofrendo as humilhações que eu sofria. Agora eu sei quem eu sou, conheço o meu potencial e tenho uma filha que tem que ter espírito de coragem, para que nenhum homem faça com ela o que aconteceu com a mãe dela” (sig Zoe)

 

Zoe, 54 anos, Cachoeirinha, é mais uma forte mulher a contar sua vida, para que outras mulheres não precisem aqui, contar sua história. Essa é uma história sofrida de coragem e superação. Ela escolheu esse pseudônimo, porque significa vida e ela quer viver depois de ter se afastado de um homem que a torturou psicologicamente e a fez refém de uma situação que parecia sem saída.  

 

Em final de novembro de 2011, Zoe conheceu um policial militar. Os dois se apaixonaram e começaram a namorar. A paixão foi tão grande que impediu que Zoe percebesse que ele tinha “algo errado”. Um dia, ela fez umas perguntas e observou que ele “ficou sem cor”, com medo de perdê-la com suas respostas. Ela ficou assustada, mas continuou namorando.

 

Tudo foi tão intenso que ela engravidou. Os dois foram morar juntos, ele demonstrou felicidade, porém Zoe se deu conta que o companheiro era muito dominador: “Ele mesmo queria escolher a minha roupa, calçado. Tudo tinha que ser do jeito que ele queria, da forma que ele queria. Eu não era mais eu. Mas, por medo de ficar sozinha, de estar com uma filha, eu continuei naquela situação”.  

 

 

O domínio

 

Depois que a filha nasceu, a relação piorou. Ele queria escolher até o que iam comer e mudou a forma de tratar Zoe, agora com indiferença, como objeto dele. “Aquilo me deixou frustrada. Eu comecei a murchar como mulher. Mas aonde eu ia, ninguém notava. Quando a nossa filha tinhas 3 anos, ele teve o primeiro surto”, recorda. Zoe disse que não queria mais ficar com ele e a reação do companheiro foi encurralar mãe e filha dentro de casa, usando sua arma. Ele dizia que iria se matar na frente da filha e que, no futuro,  a menina iria cobrar da mãe e puni-la pela morte do pai. Chorando, Zoe conta pedia socorro aos vizinhos e que, quando conseguiu se livrar do companheiro, saiu correndo pela rua com a filha nos braços, entregando-a aos vizinhos pelas grades e pulando atrás em seguida.

 

Depois desse fato, o que Zoe chama de terrorismo começou. Ela e a filha ficaram somente com a roupa do corpo e conseguiram abrigo por uma noite, na casa de vizinhos. Por meio de uma amiga, entraram em contato com uma  mulher, que trabalhava com mulheres vítimas de violência, e esta levou Zoe e a menina para a sua casa, onde elas passaram dez dias, enquanto o agressor procurava por elas. Quando se oportunizou, o casal teve uma conversa: ele pedia para voltar e ela aceitou sob a condição de o companheiro procurar ajuda profissional. Ele concordou e se internou na Psiquiatria do Hospital da Brigada Militar por 15 dias. Quando voltou para casa, houve dias menos tensos, todavia a rotina fez o agressor voltar a mostrar o que era, sempre cobrando e agredindo verbalmente.

“Dentro de casa, ele gritava, dizendo que quem mandava era ele. A nossa filha, ele começou a tratar como gente grande. Ela não podia estar na média, tinha que tirar 10 na escola. Muitas vezes ele ficava com ela a noite toda ensinando os deveres, porque ele queria que ela tirasse a nota máxima. Eu não podia fazer nada, porque tinha medo que ele nos fizesse algum mal ou se matasse e ela visse”, recorda Zoe. 

 

 

A virada

 

Assim ela foi vivendo, até que, um dia, ela teve coragem e fugiu de casa com a filha, com R$ 100 dele. A menina ficou na casa da avó materna e ela chegou a dormir no chão de seu local de trabalho, até conseguir se reerguer.

 

Zoe diz que teve uma coragem muito grande e que contou com a ajuda de amigos, que deram o alicerce que ela precisava para reconstruir sua vida. Tudo mudou, quando ela conheceu uma instituição que trabalha em auxílio às vítimas de violência,  e registrou mais um Boletim de Ocorrência e ganhou incentivo para prosseguir, sob a proteção da Lei Maria da Penha.

“Eu posso dizer que hoje eu me sinto forte, eu me sinto grande, eu me sinto preparada. A gente tem que ir atrás, a gente não pode se acomodar, porque, mesmo que não tivesse acontecido tudo isso, eu não podia ficar onde estava, estagnada. Eu prefiro morrer lutando a morrer acovardada, parada, sofrendo as humilhações que eu sofria. Agora eu sei quem eu sou, conheço o meu potencial e tenho uma filha que tem que ter espírito de coragem, para que nenhum homem faça com ela o que aconteceu com a mãe dela”, finaliza Zoe.

 

 História editada pela jornalista,Stela Vasconcellos Trevisan MTb 7897, revisada pela Profª Joelma Stuart, e pela Psicóloga Ilda Nocchi, CRP 07/15944 

 
 

 

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