ARREBOL DA MANHÃ

 

MULHER FORTE E AGUERRIDA ROMPE CICLO DE AGRESSÃO.

 

 “Ele me arrastou pelos cabelos e esfregou meu rosto no piso de concreto. São momentos de dor e angústia que deixam suas marcas mais profundas. Naquele dia tive coragem e, chorando, liguei para o 190.”(sig Arrebol da manhã) 

 

Arrebol da manhã, 32 anos, Gravataí. Tudo começou há dez anos, quando ela conheceu seu marido, seu primeiro agressor. 

“Tratou-me bem e me persuadiu. Eu, ingênua, acreditei em tudo o que ele falou. Então nos casamos, fomos morar juntos, e aí que minha vida se tornou um inferno. Primeiramente, fomos morar em um sítio, isolada do mundo, de todos, eu não podia contrariá-lo, porque levava uns esporros. Eu tinha vergonha de contar, não queria que ninguém sentisse pena de mim, ou falasse qualquer coisa sobre minha vida, ou seja, apanhava calada”, lembra.

 

Quando engravidou, Arrebol da Manhã pensou que tudo iria mudar, todavia estava enganada. O marido a agredia durante a gravidez: “Ele não batia em lugares do corpo que apareciam, eram socos e pontapés em lugares que hoje sei que não deixam marcas externas”, explica. O filho, ela ganhou sozinha e depois pediu para ficar perto de sua mãe no período de resguardo. “Fiquei lá, eu me sentia protegida, mas minha família queria me ver junto com a minha, com o pai do meu filho, meu agressor, e eu não contei nada, o que foi um grande erro”, destaca. 

 

O marido construiu uma casinha nos fundos da residência da irmã dele, e em Sapiranga, e o casal mudou-se para lá, onde sofreu ainda mais. “Eu consegui um emprego, pagava uma mulher para cuidar do meu anjinho, mas eu mal conseguia respirar para evitar apanhar. Se eu levasse cinco minutos a mais para chegar em casa, apanhava; se eu conversasse com outra pessoa sorrindo, apanhava, era horrível. Minha rotina diária era ir e vir de bicicleta, de casa para o trabalho e vice-versa. Até que um dia um moço teve um mal súbito, acabou me atropelando e me levou para o hospital. Cheguei em casa, expliquei o que aconteceu, mas mesmo com minha bicicleta destruída, meu corpo machucado, ele não acreditou, apanhei, eu já estava cansada”, desabafa. 

 

 

A coragem chega

 

No dia seguinte, Arrebol da Manhã chegou do trabalho com dor e cansada. O marido voltou a agredi-la com socos e pontapés. “Ele me arrastou pelos cabelos e esfregou meu rosto no piso de concreto. São momentos de dor e angústia que deixam suas marcas mais profundas. Naquele dia tive coragem e, chorando, liguei para o 190. Foi quando minha cunhada me xingou e pegou meu filho. Ela e o irmão foram para a delegacia e me deixaram trancada em casa. Logo em seguida, uma viatura, com dois policiais, chegou. Eles me socorreram, levando-me para o hospital e, enfim, para a delegacia. Lá, o delegado verificou qual era a verdadeira situação. Os dois policiais queriam que eu me protegesse aquela noite, mas eu não conhecia ninguém, a não ser um cliente que me emprestava livros no intervalo do meu trabalho. Eu sabia onde ele morava, pedi abrigo, ele gentilmente me abrigou. No outro dia falei com minha encarregada, ela me indicou uma colega da empresa que também procurava lugar para morar e encontrei um local para alugar”, conta.   

 

De casa, Arrebol da Manhã pegou apenas suas roupas e dois cobertores. O marido e a irmã não a deixaram ver o filho, com ameaças, e ela não conhecia nada das leis. “Com isso, eles me tiraram o que tinha de mais precioso. Mentiram, com a ajuda de uma merendeira e o Conselho Tutelar, e assim perdi a guarda. Eu tinha muito medo. Eu não queria confrontá-lo. Eu tinha medo de morrer”, dizem as piores lembranças.

 

No dia em que aconteceu a audiência relacionada à agressão, o marido a ameaçou novamente. “ Se eu continuasse, sairia dali para morrer. Eu parei”, salienta. Sua história de sofrimento ainda estava longe de acabar. Ela conheceu outro homem que prometeu lhe ajudar quando ela contou sua história. Porém a história se repetiu: mais mentiras e dor, mais um tempo de sofrimento. 

“Esta pessoa levantou a mão para mim quando eu já estava grávida dele. Dessa vez, liguei no mesmo instante para o 190 e fui acolhida super bem. Resolvi pedir demissão, vim para Gravataí e contei tudo para minha mãe, fiquei por aqui. Mas ele não me deixava em paz, veio à minha procura. Disse que aqui eu não poderia ter relacionamento com ninguém, ameaçou a mim e a meu filho. Eu demorei para pôr um fim nisso. Tive que aprender a me defender, porque a polícia nunca chegava a tempo, eu andava com facas, porrete, eu queria me manter viva. Comecei a trabalhar em um lugar e investi tudo que me sobrava em cursinhos, aprendizados na culinária”, diz a jovem, que está com 32 anos.

“Hoje, eu reconheço um possível agressor em poucos minutos, observando. Não deixo ninguém encostar a mão em mim, a não ser que seja para me abraçar. Hoje não dependo de ninguém, tenho meu filho caçula próximo de mim. Infelizmente, meu filho mais velho não acredita em mim, porque mentiram muito para ele. Eu nunca contei a história verdadeira. Estou chorando muito, porque eu queria tanto meu filho! O medo, a dor e o pânico me fizeram recuar”, justifica. Ela sabe que os piores momentos de sua vida fazem parte do passado.

“Posso dizer que consegui romper o ciclo de agressão. Essa jornada, apesar de obscura, me tornou uma mulher forte, com atitude, aguerrida e capaz de lutar pelos meus sonhos e ser feliz”, conclui.

 

História editada pela jornalista Stela Vasconcellos Trevisan, revisada pela Prfª Joelma Stuart, e pela psicóloga Ilda Nocchi.

 

 

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