ANDROMEDA

 

QUANDO SE PERDE A RAZÃO DE VIVER, E SE ENCONTRA O SENTIDO DO VERDADEIRO AMOR - FILHOS

 

Sai de casa com uma trouxa de lençol, microondas e meu computador  e um filho de 18 anos para morar na sala do meu pai, foi minha melhor decisão, não aguentaria mais aquela pressão e toda violência física e mental.” (Andromeda)

 

 

Andromeda, 54 anos, Cachoeirinha.  nascida em Montenegro, aos dois anos se mudou com a família para Cachoeirinha. A cidade era vista como uma nova oportunidade para os pais, também para seu futuro, o que ela não esperava era as voltas que sua vida daria. Em pleno anos 1980 teve um casamento arranjado pela família, não queria, na semana resolveu desistir, por ordem da mãe acabou em um convento por algumas semanas de onde saiu por falta de vocação segundo as Freiras e mantenedoras do local. Aos poucos começou a se relacionar com um antigo conhecido dos tempos de escola, tudo parecia bem e feliz até que engravidou e aos quatro meses de gestação sofreu as primeiras agressões, “ele surtou, me empurrou aos gritos dizendo que o filho não era dele”. O inferno na vida de Andromeda estava apenas começando. 

 

Três meses se passaram e ela pensou que havia sido apenas algo isolado, não foi, com sete meses de gestação novo surto e mais agressões, verbais e psicológicas, mais uma vez a frase mais dita foi: Esse filho não é meu, eu sei que tu me traiu. O ciúme doentio continuava e durante a festa de 1 aninho do filho novas agressões verbais, a chamou em um canto da festa duvidando da paternidade e recebeu ameaças, “tive que engolir, suportei aquele clima ameaçador durante todo o evento sem saber o que fazer e nem poder contar para alguém.” O fato que mais ficava evidente na relação era o medo, “ele era alguém influente na cidade, tinha contatos e disse diversas vezes que me mataria se contasse para alguém das agressões.” 

 

Sempre estudiosa e cursando História na universidade, até seu maior amor, a vida acadêmica foi atingida “certa vez sai da sala de aula e ele estava escorado na parede do lado de fora, com um olhar ameaçador, doentio me esperando, fui obrigado a desistir da graduação.” Em 1997 veio a primeira separação, ele foi viver com outra pessoa e Andromeda sentiu que tomou a decisão certa, no entanto a dependência emocional fez com que um ano depois o casamento fosse reatado com as promessas que seria diferente. Voltou para a faculdade, o retorno para a graduação foi classificada como a melhor decisão da vida, porém as cobranças e agressões voltaram depois de um tempo, o terror psicológico não tinha fim na vida de Andromeda. Com o passar dos anos as coisas pioraram, foram duas tentativas de suicídio, a primeira com remédios onde teve que passar por uma lavagem estomacal e a segunda cortando os dois pulsos “não queria acabar com minha vida, minha vontade era que a dor e os problemas passassem.”

 

Medo, coragem e basta

 

Em 2002 durante seu aniversário Andromeda reencontrou um amigo de infância, a amizade forte despertou fúria no marido que a ameaçou, ela resolveu enfrenta-lo com palavras, o resultado foi um soco no pescoço presenciado pelo pai. Se sentiu humilhada, o pai e familiares a incentivaram a sair daquela relação doentia, o perigo era grande de mais. O filho hoje com 32 anos disse para a mãe que se o medo fosse que ele não a acompanharia, não precisava se preocupar já que moraria até de baixo de uma ponte com ela caso fosse preciso para sair daquele inferno em que o casamento havia voltado a se tornar. “ Sai de casa com uma trouxa de lençol, microondas e meu computador  e um filho de 18 anos para morar na sala do meu pai, foi minha melhor decisão, não aguentaria mais aquela pressão e toda violência física e mental.” Pra quem pensa que o sofrimento com o ex-marido parou por ai, infelizmente está enganado, Andromeda descobriu um câncer de pele e no início do tratamento se viu sem um plano de saúde, o ex havia cancelado sem ao menos avisar, precisou a intervenção do filho para que conseguisse retomar o plano e finalizasse com sucesso o tratamento, no final foi mais uma vitória. 

 

Sobre as denuncias ela conta ter feito apenas um B.O, ao sair de casa para informar a decisão e os motivos que a fizeram tomar a atitude. “Por ser alguém conhecido na cidade eu sempre tive medo, também pelas ameaças recebidas e naquela época a denuncia era algo muito mal visto, se fosse hoje eu não pensaria duas vezes.” A dependência emocional no entanto ficou longe de terminar e durante os anos que se passaram muitas foram as vezes em que o pensamento era de reatar o casamento, a família e o tratamento psicológico não deixaram que isso ocorresse e em 2018 uma tentativa de suicídio fez com que sua recuperação se tornasse completa, com a ajuda do filho. Hoje Andromeda superou seus traumas, ainda assim se relacionou apenas uma vez após o fim do casamento, ela agora se dedica a ajudar no cuidado dos netos após se aposentar como professora e também em auxiliar mulheres que passaram pelas mesmas situações. “O cuidado tem que ser preventivo, desde a adolescência para que novos casos não surjam, denuncie e procure ajuda emocional, não podemos passar por isso e não precisamos passar sozinhas.” 

 

 

História editada pelo jornalista Juliano Piasentin, revisada pela Prfª Joelma Stuart.

 

 

...
Site 2.0 Incontáveis
INCONTÁVEIS © 2021